Quem foi Bernardino Tatu? Professor, médico e farmacêutico nomeia rua e escola em Dom Pedrito
Memória | Natural de Conceição da Barra, no Espírito Santo, chegou ao Rio Grande do Sul no final da década de 1900 e foi uma paixão, que virou casamento, que o trouxe à Capital da Paz

Toda história é composta de personagens. E são justamente elas, essas figuras do passado – que é presente e consequentemente futuro – que nos ajudam a compreender o que somos enquanto sociedade. A Dom Pedrito de hoje não é resultado de uma explosão cósmica, mas do trabalho de homens e mulheres que fizeram deste chão sua esperança, e que por aqui deixaram sua marca resistente à passagem do tempo que quase tudo corrói. Um destes vultos é o do professor, médico e farmacêutico Bernardino Tatu.
De sobrenome curioso e inteligência ímpar, era natural de Conceição da Barra, no Espírito Santo, e desde a adolescência demonstrou sua vocação para a docência. Com apenas 14 anos, em 1897, já lecionava em um colégio de padres na cidade de Vitória. Mas foi no início do século XX que sua vida profissional avançou. Em 1903, mudou-se para o Rio de Janeiro, então Capital Federal e prestou concurso para telegrafista, no qual foi aprovado em primeiro lugar. Três anos mais tarde, ainda no estado fluminense, formou-se farmacêutico.
Sua relação com o Rio Grande do Sul, no entanto, começa a ser vivenciada logo depois, quando em 1908 o então telégrafo – profissão que seguiu exercendo – foi transferido para o município de Caçapava do Sul, onde permaneceu por pouco tempo, pedindo transferência para Dom Pedrito. A mudança tinha um bom motivo: Semiranis Munhoz Camargo, uma jovem pedritense que conquistou seu coração e com quem ele casou-se naquele mesmo ano, união que durou a vida toda.
A inquietude, marca dos inteligentes, era uma das características de Tatu. Em 1914, outra mudança de cidade atravessa seu destino: o rumo era a capital gaúcha e o objetivo uma nova formação acadêmica, desta vez em medicina. Na década de 1920, já formado e residindo em Vacaria, ele abriu seu próprio consultório onde atendia e medicava, de forma gratuita, a quem precisasse – a bondade era outro de seus traços fortes. Assim como a sensibilidade. Mas esta cobrou seu preço e o fez abrir mão da carreira de médico.
A decisão foi motivada pelo inconformismo de Bernardino Tatu diante da morte de alguns amigos e aquilo que ele considerava como limitação profissional e científica: evitar que a única certeza humana se concretizasse. A informação é destacada pela escritora, bibliotecária e advogada, Maria Izabel Vasconcellos, no livro ‘Dom Pedrito ontem, hoje e sempre’.
Seguindo seu curso natural, a vida, este rio caudaloso, o trouxe novamente para estes pagos, onde entregou-se de vez ao magistério e às letras. Sob o pseudônimo de Maciel, contribuiu com artigos veiculados na imprensa local. Fluente em latim, francês, inglês e esperanto, ocupou por anos o cargo de professor no então Ginásio Nossa Senhora do Patrocínio e, paralelamente, mantinha em sua residência uma escola particular que foi responsável pela alfabetização de centenas de crianças. A casa onde funcionou a instituição existe até hoje, na Rua Andrade Neves, zona central da cidade, e conserva quase que totalmente o original de sua fachada.
Bernardino Tatu morreu em 1961, aos 78 anos. Sua contribuição com a educação desta terra é lembrada e reverenciada até hoje, e seu nome eterniza-se para as próximas gerações em forma de rua e educandário, impedindo que seus feitos sejam cobertos pela fina poeira do esquecimento.


