O afeto em forma de tricô
Aos 84 anos, Marlene Garrido costura sapatinhos de bebê e os doa para instituições de saúde do município

Impecavelmente vestida e com uma postura enérgica – que em momento algum demonstra seus 84 anos – Marlene Garrido me recebe para uma conversa na sala de sua casa, no bairro Getúlio Vargas. O abraço caloroso e o bom humor – característica sua – acabam com qualquer resquício de formalidade que pudesse surgir naquele primeiro contato. Ela dá início ao nosso bate-papo falando logo de sua maior alegria: a família. Para ela, sinônimo de felicidade é ter a casa cheia com a presença dos filhos, netos e bisnetos.
Ao lado da poltrona vermelha – vermelho é sua cor favorita – duas agulhas pendem de uma bolsa. Não demora muito para que ela as pegue e ensaie alguns pontos, já que esse é o verdadeiro motivo da visita, o tricô, atividade que Marlene começou há 70 anos, quando pediu para um vizinho transformar duas hastes de metal encontradas no lixo em instrumento de costura. Da primeira e única peça tricotada para seu próprio uso ela lembra até hoje: um casaco. “Ninguém dava o mínimo valor. Nem sabiam [que eu tinha feito]. Se me vissem com aquele casaco nem perguntavam de onde eu tinha tirado”, recorda.
Com as responsabilidades da vida, o hobby acabou ficando em segundo plano, sendo exercitado de forma esporádica, no preparo do enxoval dos netos, e só voltou a ocupar definitivamente os dias de Marlene há cinco anos, incentivado por uma de suas filhas. Ainda assim, ela enfatiza que o passatempo – um aliado no tratamento da depressão – só recebe sua atenção na parte da tarde: “não vou deixar de sair, de agradar minha família para tricotar”, diz ela que, através do artesanato, distribui afeto, já que as peças costuradas são destinadas à doação.
Na primeira leva produzida após seu reencontro definitivo com as agulhas, Marlene tricotou 18 pares de meias de lã, que foram ofertadas ao Lar de Idosos Major Alencastro da Fontoura. Hoje o zelo é destinado às crianças, e todas as peças produzidas são entregues no hospital – a última remessa contou com 15 pares – ao Posto de Saúde ou à UBS (Unidade Básica de Saúde) de seu bairro. “Nunca vendi um par, e nem quero vender. Isso é uma alegria pra mim, na idade em que estou, ainda poder fazer uma coisa boa pra ajudar os outros”, comenta.
Acomodados em uma pequena caixa sob a escrivaninha estão os 11 pares de sapatinhos finalizados recentemente e que ela exibe com altivez. “Eu fico tão feliz, porque não estou agradando papai ou mamãe. Eu estou agradando é o pezinho gelado de quem talvez não tenha nada”, reflete.
Para a filha, Giovana Garrido, ações como essa fazem da mãe um exemplo de vida e de mulher. Engajada em sempre ajudar o próximo, seja ele quem for, Marlene diz ter “o maior prazer de repartir aquilo que muitas vezes eu não tive e agora tenho. Nós de mais de idade temos que fazer pelos mais novos, pelos que estão vindo agora. Antigamente era tudo diferente, mas hoje está tudo aí [conhecimento, oportunidades, informação] explodindo, e eles tem que viver”, finalizou.
Doações de linhas
Durante nossa conversa, questiono dona Marlene sobre os custos de produção. Ela diz que as linhas são compradas pelas filhas, e que cada novelo custa em torno de R$15. Pergunto se ela aceitaria doações de lã da comunidade, como uma forma de incentivo para dar continuidade aos trabalhos, ao que ela respondeu não haver problemas.
Desta forma, se tu te interessaste pelo trabalho desenvolvido pela dona Marlene, entra em contato com a Giovana (53) 99962-5676 ou com a Gisele (53) 99991-5165 e fala do teu interesse em colaborar com esta ação.


