HISTÓRIA DE GRAÇA: A REVOLTA DO VINTÉM
Rebelião na Capital do Brasil Império. Por Cláudio Lopes.

A última década da monarquia brasileira começou com uma grande manifestação a fim de desacreditar a autoridade do Imperador Dom Pedro II.
A Revolta do Vintém foi um protesto ocorrido entre 28/12/1879 e 04/01/1880 nas ruas do Rio de Janeiro, contra a criação de um tributo de vinte réis, ou seja, um vintém, sobre as passagens dos bondes e trens, instituída pelo ministro da fazenda do Gabinete Sinimbu, Afonso Celso de Assis Figueiredo, futuro Visconde de Ouro Preto (Lei do Orçamento, 31/10/1879). Aos gritos de “Fora o vintém” a população espancou os condutores, esfaqueou os burros, virou os bondes e arrancou os trilhos ao longo da Rua Uruguaiana.
Um levante de aproximadamente cinco mil manifestantes se colocou em frente o campo de São Cristóvão, sede do palácio imperial, para exigir a diminuição da taxa de vinte réis (um vintém) cobrados sobre o transporte público feito pelos bondes de tração animal que serviam a população.
Um pelotão da cavalaria impediu o acesso ao “portão da coroa”. Momentos depois, quando as pessoas começavam a dispersar, chegava um mensageiro da coroa dizendo que D. Pedro II aceitaria receber tão-somente uma comissão formada pelos “representantes do povo”. Porém era tarde. Os súditos e cidadãos em retirada resolveram ignorar a atenção tardia do imperador e a comissão, formada por Lopes Trovão, Ferro Cardoso, José do Patrocínio e Joaquim Piero da Costa, se recusava voltar atrás.
Demonstrando certo desconforto, mas fazendo a apologia da ordem estabelecida, da conduta da polícia e da atitude do monarca, a grande imprensa insistia em afirmar que o único incidente grave ocorrido em 28 de dezembro teria sido a recusa da comissão de “representantes do povo” em aceitar o chamado, ainda que vacilante, de D. Pedro II. Contudo, a calma aparente seria abalada poucos dias depois com a chegada do “ano novo” e do novo imposto. O movimento de protesto passaria a incluir outros segmentos da população carioca menos “ordeiros”, e a “civilidade” no episódio da tentativa de entrega da petição ao imperador ficaria definitivamente para trás.
Incitados por Lopes Trovão, uma massa de revoltosos se dirigiu até o Largo de São Francisco, local de partida e chegada da maioria dos bondes.
Em 1º de janeiro de 1880, data marcada para o início de cobrança da nova tarifa, cerca de quatro mil pessoas se recusaram a usar o transporte público e se concentraram no largo do Paço para uma nova passeata. Os manifestantes entraram na Rua Direita, atual Primeiro de Março, seguiram até a rua do Ouvidor e pegaram a reta que dá no largo de São Francisco.
No caminho, derrubaram bondes, espancaram condutores, esfaquearam animais usados como força de tração, retiraram trilhos e ergueram barricadas. Os policiais, sem condições de fazer oposição ao protesto, logo pediram o auxílio das autoridades do Exército, que foi enviado para controlar a situação. Em meio ao confronto, o comandante, barão do Rio Apa, levou uma pedrada, e a reação veio à bala. Ao final do dia, o saldo foi de três mortos e quinze feridos.
Passado o calor dos acontecimentos, o motim popular foi completamente desarticulado nos dias posteriores.
O alvoroço trazido pelo episódio trágico forçou as autoridades e companhias de bonde a anularem o reajuste do transporte.
Esse fato aborreceu muito o Imperador. Escandalizou sua natureza pacifica e conciliadora. Ele não perdoava nunca qualquer violência, fosse a pretexto do que fosse. “Essas coisas me afligem profundamente”, escrevia a Gobineau. “É a primeira vez que acontece no Rio desde 1840. Há quase quarenta anos que aqui presido o Governo sem que tivesse sido necessário atirar sobre o povo”, desabafou o imperador.
A década final do Império do Brasil começaria com a vitória de uma mobilização política liderada por jornalistas Republicanos que não foram punidos por incitar atos de vandalismo e destruição na capital do Império.
Muitos opinavam que o país não podia mais contar com a autoridade do monarca, tantas vezes posta à prova no passado, dada a sua velhice precoce e o péssimo estado de suas condições de saúde. Opinião, aliás, generalizada, que não era somente daqueles que combatiam a monarquia, mas também de muitos monarquistas, mesmo dos mais chegados ao trono ou à Família Imperial.
Inclusive do Conde d’Eu, segundo o qual, o imperador, havia perdido grande parte da autoridade que sempre gozara junto aos nossos políticos, inclusive o interesse que sempre tivera pela coisa pública e a mesma capacidade de ação para tê-la sob suas vistas.
“Anda cada vez mais esquecido das coisas presentes e alheio aos assuntos políticos”, escrevia o Visconde de Taunay em seu Diário.
Fonte: História de Dom Pedro II
