Fundamentais e invisibilizados, saiba como é o dia a dia de quem trabalha no Cemitério Municipal
Conversa com a equipe responsável pela manutenção da necrópole aconteceu na última sexta-feira (28) e, além dos relatos pessoais, levantou algumas demandas dos trabalhadores

O tilintar de ferramentas sendo carregadas pelo grupo que retoma o expediente traz, ironicamente, vida ao silencioso espaço que guarda a memória de tantos pedritenses. Flores de plástico e datas fatais, gravadas em bronze, mármore ou porcelana, compõem o ambiente de trabalho daqueles homens. O cheiro de cimento fresco se mistura agora ao odor predominante das velas derretidas. A massa de concreto é mexida por mãos que manuseiam pás e enxadas com uma habilidade surpreendente, demonstrando a prática de quem tem uma rotina de trabalho intensa.
Em meio a poeira e ao sol escaldante da última sexta-feira (28), teve início a minha conversa com a equipe responsável pela manutenção do cemitério municipal: coveiros, pedreiros e zeladores. Figuras fundamentais para o funcionamento de qualquer sociedade, mas invisibilizadas pela mesma.
Começo nosso bate-papo com a mais óbvia das perguntas: como é trabalhar aqui?. As respostas chegam diferentes, mas, no final, todas resultam em um denominador comum de que ‘com o tempo a gente acostuma’. O tempo: um rio que corre, como definiu a escritora Lya Luft, é preeminente nesse cenário que, apesar de carregar o tom soturno da morte, é responsável pelo sustento de tantas famílias.
Oficialmente dividido em dois turnos, o expediente acontece das 7h30 às 11h30 e das 13h30 às 18h, o que não impede um chamado de emergência em casos de sepultamentos noturnos, como relata o coveiro Antônio Marcos Leon, que passou por situações semelhantes no auge da pandemia: “teve um final de semana em que o outro coveiro tava de folga e só entre sexta e domingo tiveram 22 sepultamentos”, recorda.
Funcionário do município há quase seis anos, Leon nunca passou por outro setor público. “Fiz o concurso e vim direto. A primeira semana é complicada, mas foi tranquilo, não teve muito mistério. O complicado, no começo, é que a gente vê os familiares sofrendo, principalmente na hora de fechar a gaveta”, conta.
Dos momentos mais difíceis em que precisou exercer a profissão, ele recorda um a nível pessoal, com a morte do avô de sua esposa: “Ele faleceu no dia 16 de dezembro, dia do meu aniversário, e foi sepultado no dia 17, aniversário da minha filha mais velha. Na hora a gente sente, não tem como não sentir, mas faz parte. É a vida.”, conclui o coveiro.
Medo só dos vivos
Para boa parte da população os cemitérios são vistos como solo santo. Os mais espiritualizados falam sobre o intenso fluxo de energia presente no local, e há também aqueles que nem passam perto de uma necrópole por medo ou crendice.
A conversa, conduzida em tom informal, permitiu algumas brincadeiras com a equipe. Questionados se já haviam visto algo de ‘sobrenatural’, foram unânimes em afirmar que ‘medo a gente tem que ter é dos vivos’.
“Eu já vim até de noite aqui, cansei de ficar até tarde trabalhando e nunca vi nada” , acrescenta o pedreiro José Carlos Mendes que, entre idas e vindas, desempenha há oito anos o seu ofício no cemitério.
Segurança
Os vivos. Esses sim devem ser temidos pelo mal que podem fazer. Não é surpresa afirmar que muitos pedritenses se sentem inseguros em visitar sozinhos o túmulo de um ente querido. A falta de segurança que o Cemitério Municipal apresenta foi outro ponto levantado em meio à conversa, já que oferece, dentre os riscos, ameaças ao patrimônio público ou privado, seja por furtos ou atos de vandalismo.
Em plena entrevista, nos deparamos com uma dessas situações: o relato sobre um furto, naquela madrugada, a um jazigo em obras. O fato foi narrado pela parte lesada, e mobilizou outra parcela da nossa equipe que acompanhou o caso. Conforme registrado na Delegacia de Polícia, foram levados do interior do sepulcro materiais de construção e diversas ferramentas.
Melhorias na infraestrutura
Uma das soluções para amenizar tais casos seria a instalação de câmeras de segurança na necrópole, medida que segundo o administrador do cemitério, José de Melo Azambuja, popularmente conhecido como Pastor Preto, já foi levada ao Executivo, assim como outras demandas.
“Já levamos a questão dos banheiros, agora estamos vendo se colocamos luz num poste. Precisamos fazer a poda de uma árvore pra poder chegar até lá. E eu pretendo colocar câmeras. Assim que forem colocadas, a gente vai arrumar os banheiros”, pontuou Azambuja.
A necessidade da reforma dos sanitários foi levantada pela própria equipe de trabalhadores, que acaba tendo de utilizar o reservado da capela velatória.



