Falha humana foi a causa do acidente aéreo ocorrido em março de 2014

A polícia civil de Dom Pedrito está encerando o inquérito sobre as investigações do acidente com o avião agrícola que vitimou Everton Alan Roos, em 26/03/14, na localidade de Fontouras, interior do município de Dom Pedrito.
O avião agrícola pilotado por Everton chocou-se contra um bosque de eucaliptos quando encerava a pulverização de uma lavoura vizinha à fazenda Viragro – A Tala, onde a vítima acabou falecendo. As investigações demoraram a ser encerradas pela demora na conclusão de uma perícia da Aeronáutica, que somente foi concluída no primeiro semestre de 2016.
Mesmo antes da chegada do laudo da aeronáutica, as investigações já apontavam para uma possível falha humana do piloto como principal causa do acidente. Relatos de testemunhas e a análise do local do acidente mostravam que o piloto poderia estar realizando algum tipo de “manobra” arriscada ou voando muito baixo quando chocou-se contra as copas das árvores, mergulhando para dentro do bosque. O laudo da necropsia do corpo do piloto mostrou que ele morreu em decorrência de carbonização, e não do impacto.
Agora com a chegada da análise pericial feita pela aeronáutica, reforçou-se a hipótese de falha do piloto. O laudo aponta que não foram encontrados problemas mecânicos na aeronave e salienta que a documentação e manutenção da mesma estava em dia.
O laudo analítico aponta que relatos obtidos pelos peritos descreviam que o piloto costumava efetuar “balões” com a aeronave e acessar a internet e falar ao telefone enquanto voava.
Leia aqui na íntegra a análise conclusiva do CENIPA – CENTRO DE NVESTIGAÇÃO E PREVENÇÃO DE ACIDENTES AERONÁUTICOS ANÁLISE
Os exames realizados nos componentes da aeronave descartaram a possibilidade de ter ocorrido alguma falha mecânica ou estrutural desta.
Em função das informações obtidas na Ação Inicial, descartou-se a possibilidade de o piloto estar realizando voo noturno.
Os processos organizacionais da empresa não contemplavam uma supervisão formal com o objetivo de acompanhar e controlar o desempenho do piloto, bem como não havia padronização da operação, de modo a orientar as ações dos pilotos. Em consequência, os pilotos tinham total autonomia sobre a operação nas regiões de aplicação.
Não havia registros de atividades de Segurança de Voo na empresa. Da mesma forma, não havia qualquer RELPREV preenchido.
Devido ao padrão de distribuição dos destroços no local do acidente, a Comissão de Investigação chegou à conclusão que a aeronave colidiu primeiramente com o profundor, em uma atitude cabrada.
De acordo com o exposto no relatório e com a análise da investigação, existe a possibilidade de que o piloto estaria tentando realizar uma manobra que, na aviação agrícola, é conhecida pelo termo “pular árvore”.
Esta manobra se caracteriza pela ação do piloto em voar rasante até um capão de árvores e, quando próximo a este, realizar uma cabrada agressiva de forma a livrar a copa das árvores. Neste caso, o piloto pode ter errado em seu julgamento de distância e colidido contra as árvores do capão.
Como se supõe que o piloto possuía ainda pouca experiência de voo, a realização de manobras mais agressivas indica a possibilidade de uma atitude de excesso de confiança na própria capacidade de operação, levando-o a superestimar a capacidade de controlar os eventos em voo.
Além disso, é possível supor que, mediante o fato de o piloto estar realizando o último dia de voo da safra – após o qual iria retornar para casa – o seu nível de atenção estivesse rebaixado, interferindo numa melhor avaliação das condições do voo sobre obstáculos naturais.
Uma segunda hipótese remete para a possibilidade da visão do piloto ter sido ofuscada em função da posição do sol, quando este retornava para pouso, uma vez que o sol se encontrava em sua proa.
Com isso, o piloto pode ter demorado a identificar o relevo do capão e não ter tido tempo para um comando efetivo que pudesse impedir a colisão ou, ainda, a possibilidade de sequer ter visto o capão de árvores com o qual colidiu.
De qualquer forma, ficou evidente que o piloto descumpriu a legislação prevista ao realizar o retorno para a sede abaixo de 500ft AGL, uma vez que já havia concluído sua atividade na área de aplicação do produto.
Essa atitude do piloto refletiu um comportamento que ele adotava em outros vôos realizados anteriormente, desconsiderando regulamentos e procedimentos, e que pode ter sido reforçado pela postura complacente dos gestores da empresa diante dos fatos, uma vez que tinham ciência de tal comportamento em voo, mas não agiram de modo a inibí-lo.
Relembre o caso
No final da tarde ontem (26), por volta das 18hs30, a reportagem do Portal de Notícias da Qwerty recebeu a informação de que um avião agrícola havia caído na Ferraria, próximo à Dom Pedrito. A aeronave prefixo PT GYC pertencia à empresa Aerovac Aviação Agrícola, da região de Mata, em Santa Maria, caiu entre eucaliptos perto da Cabanha A Tala. O piloto Everton Allan Roos, de 26 anos, natural de São Borja, na fronteira oeste do estado, voltava para a base onde o avião seria guardado, quando ocorreu o acidente.
Fernando Castro da Rosa, que é o representante da empresa em Dom Pedrito, disse que “o piloto era muito bom, e o avião havia sido abastecido por volta das 18hs”.
De acordo com a polícia, Everton tinha finalizado a pulverização de uma lavoura de soja bem próxima ao local do desastre. O avião bateu nas arvores e, depois incendiou. Os bombeiros foram os primeiros a chegar ao local e rapidamente conseguiram controlar o fogo.
A Brigada Militar chegou logo depois e isolou a área para a chegada da Polícia Civil e do IGP (Instituto-Geral de Perícias) de Santana do Livramento. De acordo com Fernando, “o avião será periciado pela ANAC (Agência Nacional de Aviação Civil), para identificar as causas do acidente”.