Casamento e festa de 30 dias: Saiba como foi a cerimônia cigana que teve Dom Pedrito como palco dessa tradição
Curiosidades e histórias sobre o povo que escolheu a Capital da Paz para a celebração

Os ciganos sempre chamam a atenção por onde passam, seja pelos acampamentos, vestimentas, idioma, seja pelos seus costumes e tradições que desafiam os tempos. Existem muitas controvérsias sobre a sua origem real, muito disso porque o estudo acerca desse povo se deu pelos não-ciganos, além da pouca ou quase inexistente preservação escrita de sua história. Estudos a parte, queremos registrar a passagem de um grupo de ciganos por Dom Pedrito e que durante o mês que antecedeu o domingo passado (20) fizeram de cada dia uma festa, que culminou com um casamento típico, com direito a benção católica.
O grupo é liderado por Miguel Ramos de Sá, cigano de 67 anos, natural de Passo Fundo. Ele é casado com uma mulher de 50 anos e pai de três filhos. Fomos recebidos amigavelmente em sua tenda, no acampamento montado no Campo do Fluminense. Existem algumas etnias que classificam os ciganos, mas o grupo a que Miguel faz parte tem influências do Guarani, povo indígena presente no Rio Grande do Sul.
O líder do Grupo composto essencialmente por parentes (em torno de 30 pessoas) nos explicou que sua presença na cidade se deu por conta do casamento de dois jovens, literalmente, o que na cultura cigana é bastante comum. Kaique Santos Soares e Nubia dos Santos Motta, de 16 e 14 anos respectivamente se casaram no acampamento. Eles haviam sido prometidos um ao outro ainda crianças e foram preparados por suas famílias para este dia. “Na nossa família não existe namoro, eles desde pequenos já são prometidos um para o outro”, revela o líder do grupo.
Miguel explica que os noivos, embora distantes, são parentes e as uniões se dão sempre dentro da mesma família. Nubia é neta de Miguel e Kaique é filho de um sobrinho.
Curiosidades
Sabem aquela história de que a noiva precisa comprovar a virgindade por ocasião da noite de núpcias? Pois então, é verdade. Com naturalidade, o líder cigano confirmou o costume que deve ser realizado pela mulher, mostrando aos pais do noivo o vestido manchado de sangue.
Outra curiosidade é que, apesar de casados, os noivos, por serem ainda bastante jovens, recebem a ajuda financeira das famílias por mais três anos após o casamento. Depois disso, a vida é por conta deles.
Com relação ao grupo, ficam no máximo 40 dias em cada lugar e depois pegam a estrada até outra cidade. Miguel conta que tem casa em Passo Fundo, mas que nunca conseguiu ficar – “Me sinto sufocado”, conta o cigano.
O casamento
A cerimônia é celebrada por um membro da comunidade cigana, geralmente mais velho, e no idioma próprio. Depois disso, a benção do padre na igreja católica, que na presente ocasião se deu na Igreja Matriz Nossa Senhora do Patrocínio.
Idioma
Nossa chegada foi marcada pela apresentação, é claro, e pela observação do diálogo estabelecido entre os ciganos. Segundo Miguel, sua família se comunica no “Arabeano”, Idioma com origem no Árabe. Ele ainda menciona a origem beduína do grupo ao qual pertence, o que explica um pouco o aspecto linguístico presente em sua família. Estudos a cerca da presença dos ciganos no Brasil afirmam que a língua mais falada entre este povo no país é o Romani. No entanto, os ciganos acabaram ao longo do tempo e das migrações adquirindo influências dos idiomas falados nos territórios onde passavam, e por isso é possível que haja diferenças na língua falada por grupos distintos.
Comerciantes por natureza, o cigano contou que ainda encontra o racismo e o preconceito em alguns lugares por onde passam, mas que na maioria das vezes são bem recebidos, como no caso de Dom Pedrito, cidade em que montam acampamento há vários anos.
Festas e viagens
Além dos casamentos, outras festas como em finais de ano e batizados costumam ser comemorados com muita comida e bebida pelo grupo. As viagens fazem parte da vida cigana e foi assim que Miguel revelou conhecer todo o Brasil e países vizinhos. De Dom Pedrito eles devem seguir para Santana do Livramento, daqui a alguns dias.

